No Ar e no Céu – Eleide Bérgamo

A apreensão no momento da subida se desfez quando me dei conta que o que me separava do espaço aberto era apenas uma placa de acrílico. Quando o cabo de aço que prende o planador ao reboque se solta a vontade é de gritar a liberdade, como se a última linha que nos ligasse a algo concreto simplesmente desaparecesse em segundos. Esses pilotos são privilegiados. Podem fugir das tormentas que nos aprisionam às coisas que estão sobre a terra. Flutuar num planador é mágico. Seguem-se as instruções da natureza e a habilidade do comandante do voo nos leva suavemente para onde se deseja ir. Flutuar num planador é criar intimidade com o insólito, o abstrato, o improvável… Poder sentir o vento na mão a 500, 700, 1.000 metros de altitude? E quem poderia imaginar ouvir o silêncio do céu? Eu ouvi, e vi lá de cima o quanto a nossa cidade é linda e indefesa.

As pessoas que cuidam desta terra deveriam vê-la do alto, no silêncio e na suavidade do voo de um planador. Aposto que iriam lembrar do quanto ela é maravilhosa antes de fazer algo que não fosse em seu benefício. Lá de cima, fazendo parte da paisagem, dá para ouvir o sofrimento emudecido da natureza e o grito surdo da cidade que espera por dias melhores.

Lá em cima, velejando num voo livre, estive duas vezes no ar. Alguém já teve alguma notícia de um(a) repórter falar ao vivo para os ouvintes direto de um planador? Não vale pensar em helicóptero. Acho que quebrei uma barreira e desfrutei de um certo ineditismo. Agora, cada vez que vejo um planador no céu sorrio sozinha: tenho certeza que entrei para o time dos privilegiados.

Obrigada aos amigos do Aeroclube de Bauru que me proporcionaram tanta emoção. Um beijo especial para a Luciana e o piloto-instrutor, Carlos Montanholi.

A autora, Eleide Bérgamo, é jornalista da Rádio Unesp FM e assessora de imprensa do Hospital Estadual Bauru