O Flamingo – Lamartine Navarro Jr.

O dia já está quente, apesar de não ser ainda 11:00 horas. Cúmulos em formação cobrem 3/8 do céu e 6 nós de vento constante em 45º de travéz, sopra suave no aeroporto de Bauru.

Estranho, sexta-feira, o tempo pintando bom para o voo e ninguém no Aeroclube. Por fim arrumo piloto para o rebocador e ajuda para levar o “Libelle”  para a cabeceira.

No hangar, recorro a geometria para tirar o “Libelle” sem movimentar todos os planadores com suas asas e caudas devidamente encaixadas no sistema “ Deco” do hangar.

Observo o velho “Flamingo”, pintura fosca com aquela poeira grossa que indica vários meses de abandono e desuso.

Com uma ponta de saudade e tristeza fixo a bateria e termino a liberação do “Libelle”.

Alinhando na cabeceira, plexi travado, cintos apertados comandos checados, dou o sinal positivo e o Aerobuero estica o cabo e lentamente inicia a corrida.

Abaixo a asa direita, mantenho a reta com os pedais, alivio naturalmente a cauda com leve pressão no manche.

É o momento mágico do voo. Aquele instante em que o planador adquire vida e o piloto sente nas mãos e nos pés, inicialmente imperceptível, o iniciador da simbiose magnífica entre homem e máquina, que frômito momentâneo e na crescente regidêz dos comandos que a velocidade relativa realizou o milagre do voo.

Calço o manche e o planador praticamente salta, estabilizando na linha de cauda do Aerobuero.

Automaticamente asas niveladas com o reboque, avalio altura velocidade para o caso de um desligamento acidental.

O Aerobuero sobe devagar e de repente, pronto,  já será possível retornar no caso de pane. Cada piloto conhece seu limite e o da máquina e é sempre uma sensação de alívio não ter mais que apelar para o pouso em frente.

Estimo a altura da camada em 1200m e observo a área de tráfego da pista de Bauru. Tudo tranqüilo, somos os únicos no espaço aéreo.

Cruzamos 300m e testo o indicador sonoro de subida do “Libelle”. Reduzo o volume para o mínimo perceptível para evitar perturbação na tranqüilidade  do voo.

Estamos a 450 m e sinto o inchasso de uma boa térmica.

Desligo, curvo à direita, cabro ligeiramente e observo a esquerda, o mergulho do rebocador, o longo cabo pendente, de volta pra a pista.

Forço a inclinação para a direita, quebro a velocidade e procuro centrar a térmica. O “climb” indica 2 m/s, brigo um pouco com os comandos desacostumado com a sensibilidade  do “Libelle”, cravo a velocidade em 75 km/h, giro fechado e já passamos os 700m.

Entramos no reino do silêncio e da paz. Escuto o sibilar do vento na estrutura, percebo o som da glissagem quando exagero nos pedais, sinto o leve tremor, quando reduzo a velocidade para o entorno de 60 km/h.

Diminue a intensidade da térmica.

Olho ao redor e algumas urubus volteiam sobre um conjunto de casas populares.

Suavemente estabilizo, atuo no compensador, manche a frente e vamos aos urubus.

Dou uma puxada bem em baixo do bando para a aproveitar a energia acumulada e ascendendo, engrenando na térmica girando à esquerda, bem inclinado e com o “climb” indicando 2 m/s .

Centro a térmica que firma em 4 m/s. A subida é suave e rápida, parei de brigar com os comandos e já estabeleci aquela identidade entre piloto e máquina, onde parece que os ambos agem movidos pelo mesmo impulso e com o mesmo objetivo de maximizar o encantamento do voo.

Parece que o tempo parou. Nos deslocamos juntos com aas nuvens na direção da represa, o altimetro indica 1.800 m, já voamos mais de 2 horas e parece que recém decolamos.

Saio da nuvem para o azul. Pressiono o manche e inico uma picada – o velocímetro indica 140 – 150 – 160 – 170 – cabro suavemente, sentindo o efeito da gravidade e o “Libelle” se projeta como uma lança de prata, subindo a 45º consumindo a energia acumulada. O velocímetro indica 90 km/h – calço o pé esquerdo, manche centrado, observo a asa esquerda traçar um semi-circulo no céu, acompanho sua passagem pela vertical ao solo, olho em frente, mantenho a reta, velocidade de novo em 170 e inicio uma suave  recuperação , o “wing-over”está completo. Outro “wing-over” mais radical, seguido de um oito preguiçoso e já estou de volta nos 800 m.

Retorno para baixo das nuvens, centro uma térmica de 2,5 m/s e lá vamos nós de novo para a base.

Circulo lentamente, observo no horizonte, os diferentes matizes de azul, a sombra das nuvens sobre os campos, o verde da soja, o verde dos canaviais, o marrom avermelhado da terra arada, os pastos ponteados de pontos brancos de gado.

O país vivendo, produzindo, crescendo.

Volto para o azul e procuro outra nuvem para uma esticada.

Me localizo com relação a Bauru. Estou fora do cone, sem preocupação, pois temos uma longa rua de nuvens para o retorno.

Olho para cima e bem alto, acima dos cogumelos dos cumulus  -  lá está ele  –  Um outro – Planador – cintilante ao sol e circulando lentamente como uma grande águia dourada em busca de sua presa.

Calculo que esteja a mais de 3.000m. Como chegou lá?

Que térmica foi essa que ultrapassou a altura do cumulus?

Não havia ninguém no Aero-Club. Não vi nenhum reboque.

Que planador seria aquele?

Procuro subir, pesquizo as térmicas no cone de voo do novo planador e não acho nada. Me mantenho, contudo, circulando no azul sem perder altura.

Estranho, vou ganhando lentamente, o altimetro já indica 2400 m e o “climb” e o indicador sonoro, por estranho que pareça, não mostram absolutamente nada.

Continuo a subir no voo mais suave que jamais senti.

Me aproximo, fixo o olhar no outro planador e já consigo discernir sua cor dourada iridescente e as bordas vermelhas de asa.

A sensação de paz e o silêncio se acentuam .

È O FLAMINGO.

O Flamingo com suas asas de gaivota, novo, a pintura amarela brilhando como ouro velho, o vermelho profundo como sangue e o plexi refletindo a intensa luz do sol.

E voa com uma suavidade nunca vista. Sobe em curva a esquerda, inclina uma pouco mais, cede o nariz , reverte a curva para a direita, ganha um pouco mais, completa a curva, estabiliza e passa na minha vertical em ligeira picada.

Manobro rapidamente em curva de grande pela direita e acompanho a picada do Flamingo.

Quero saber quem é o companheiro de voo.

Atinjo 140 km/h, forço a picada para 160 km/h e não me aproximo do Flamingo.

Porque? O “Libelle” é um classe “A”, mais aerodinâmico e muito veloz que o velho Flamingo.

E aí tem inicio o extasiante espetáculo.

Emoldurado pelo cumulus, envolvido pelo sol como que possuído de luz própria, o Flamingo acentua o mergulho e executa uma sequência de “looping” perfeitos e – acreditem vocês – em ascendência, como se a energia de cada saída em picada, o levasse a uma tangência no dorso em altura superior a cada volta. Indica uma série de oitos cubanos, completa com um “wing-over” girando o Flamingo praticamente na vertical e passa 10 m na minha frente em mergulho vertical.

Acompanho a manobra com o olhar, o Flamingo recupera, sobe na minha cauda, bem alto, outro “wing-over” pela direita e emparelha com o “Libelle” a minha esquerda com a ponta da asa 20 cm abaixo da minha.

Aceno, procuro ver o inacreditável piloto, através da claridade do sol plexi.

Num relance passamos na sombra de uma nuvem e lá está nítido o velho “Widmer”, pequeno na carlinga com o boné vermelho e o seu sorriso maroto e inesquecível.

Me acena um adeus, pica, acelera, manobra a esquerda e ascendendo entra na lateral do cumulus.

O velho “Widmer” no seu Flamingo, voa para o infinito e para Deus.

Por isso meus amigos, quando voando sozinhos na região de Bauru, em dia de boas térmicas e altos cumulus, se virem por acaso o Flamingo amarelo e vinho planando acima das nuvens, deixe-o em paz. Observem de longe.

Não atarapalhemo voo do velho “Widmer”.

Autor: Lamartine Navarro Jr.