Voando para o Futuro – Fábio Lara

E lá estávamos nós, retornando do Mato Grosso rumo a São Paulo a bordo da reluzente aeronave de meu amigo e vizinho de fazenda, Luis Inácio. Nossa viagem exigia uma escala para reabastecimento e desta feita Luis optou por Bauru. Estava saudoso da terra da areia branca, da ferrovia, da inesquecível Eni e também de nosso grande companheiro Pedro Henrique, veterinário de mãos cheias, que naquelas bandas desenvolvia em sua fazenda o que há de mais moderno em termos de seleção genética de gado de corte.

Luis planejou nossa escala para o recém inaugurado aeroporto Bauru/Arealva que aliás, presta justa homenagem a um Jauense ilustre, o grande aviador Comte João Ribeiro de Barros.

Iniciamos o procedimento de descida e Luis Inácio, animado como sempre, me alertou: “prepare-se para conhecer a modernidade. Vamos pousar em breve no mais novo aeroporto do Estado de São Paulo”. Continuamos nossa descida e logo adiante um comunicado do Controle Bauru: “chame agora a Freqüência Livre e bom pouso”. Freqüência Livre ? admirou-se Luis Inácio. Essa é a que eu uso quando pouso em Avaré, que é a mesma de Ibitinga, de Lençóis Paulista, da fazenda do Julinho, do Amaral , do Pedro Henrique ……… Enfim, é um “canal” que sintonizamos onde inexiste controle algum que possa nos dar qualquer apoio, onde os pilotos em voo de tudo quanto é canto transmitem desordenadamente suas posições e intenções, na esperança de que algum outro que possa estar vindo em sentido contrário saia da frente e não nos cause surpresas inesperadas.

Mas isto não seria motivo para tirar o bom humor do Luis. Afinal, sua aeronave estava equipada com o que havia de mais avançado em instrumentos de navegação e pouso. Algo, porém não corria bem e aquele painel ultramoderno insistia em não funcionar. VOR´s, DME, ADF´s…………nada. Notei certa decepção em Luis Inácio ao constatar que nada iria funcionar pois o tal do aeroporto novo não contava ainda com estas conveniências. Afinal, isso não era nada que a boa e velha bússola, um cronômetro e um mapa não pudessem resolver e em poucos minutos pousamos na maravilhosa pista, taxiando para estacionar defronte ao imponente Terminal de Passageiros onde um funcionário do aeroporto com seus gestos semi-incompreensíveis, nos indicava o local em que deveríamos estacionar.

Ao desembarcar senti a agradável sensação de pisar novamente o solo do meu querido estado, contemplar todo aquele verde a minha volta, para onde quer que eu olhasse e descansar meus ouvidos com o profundo silencio do local após tantas horas sob o ronco constante dos motores daquele avião. Parecia ter desembarcado no paraíso, um paraíso particular, feito só para nós. O Luis Inácio tinha razão: aquilo sim era um aeroporto moderno, um novo conceito, o aeroporto do futuro!

Já passava do meio dia e resolvemos adentrar o terminal para um almoço rápido. Tudo muito bonito, muito limpinho, mas………..onde é o restaurante? – perguntei a uma funcionária que passeava pelo saguão ostentando um crachá pendurado no pescoço.

Restaurante não tem não senhor, respondeu-me.

E a lanchonete?

Também não tem, não senhor.

Sei……E onde posso tomar um café e comer um pão de queijo?

Só na cidade, respondeu-me com um sorriso meio constrangido.

E onde é que tem um telefone público? Meu celular está descarregado.

Telefone público só na vila, aqui não tem não senhor.

E tem ônibus pra lá?

Não tem, não senhor?

E como eu faço? Tenho que pegar um ônibus para a cidade?

Também não tem, não senhor??

Só falta você me falar que a Casa da Eni também não existe mais!

Não mesmo, a Eni já faleceu

Verdade? E não deixou sucessores?

Como??

Não deixou filhos?

Isso eu já não sei lhe informar direito, mas dizem que deixou muitos filhos por aqui.

Estava quase ficando indignado quando chega o Luis com cara de poucos amigos.

Você não vai acreditar: não conseguiremos abastecer o avião, aqui não vende gasolina !

Claro que acredito, Luis. Descobri que aqui também não vende comida, lanches, refrigerantes, café, revistas………nem mesmo um simples cartão telefônico! Também pra que? Não tem telefone!!

Até a casa da Eni fechou. Ela morreu mas dizem que deixou um punhado de filhos.

Ah, isso eu tenho certeza, exclamou Luiz!! Mas tem seu lado bom. De uma só vez nos livramos do colesterol dos sanduíches, dos açucares indesejáveis dos refrigerantes, da cafeína, dos escândalos das manchetes dos jornais, dos poluentes combustíveis fósseis e até mesmo do, apesar de útil, incomodo telefone. Não lhe falei que iríamos conhecer o futuro!!!

Não nos restando outra opção decidimos tomar nosso caminho e rumamos em direção a aeronave onde o Chico, aquele funcionário do aeroporto, estava nos aguardando com sua prancheta na mão para a cobrança das taxas pela utilização do moderno aeroporto.

Ao embarcar ouço o Luiz reclamando:

O que é isso no pára-brisa?? Cocô de passarinho?? Deste tamanho??

São os tucanos, explicou-nos o Chico.

Mas tem tucanos morando por aqui?

Morando não tem, não senhor. Aqui eles só passam voando e de vez em quando deixam estas suas lembranças.

Acionados os motores decolamos rumo a Piracicaba onde certamente encontraríamos combustível, com o rádio sintonizado na tal Freqüência Livre. Foi quando ouvimos a voz de nosso amigo Pedro Henrique, o fazendeiro do futuro, anunciando o pouso em sua fazenda, na mesma freqüência do aeroporto do futuro. Pensei até em cumprimenta-lo mas, para falar a verdade, estava meio injuriado com estas coisas do futuro. Muita modernice para um dia só !!

No caminho uma deliciosa chuva de verão para lavar o avião.

Ainda bem, comentou Luis Inácio. Só me faltava ainda ter que limpar esta cagada de tucano.

Autor: Fábio Lara – Presidente do Aeroclube de Bauru