Kurt – O Eterno Paraninfo

Na década de 40, Hendrich Kurt, um jovem alemão, fugia da Segunda Guerra Mundial.
O sensível músico e talentoso artesão, que também era mecânico de alta precisão, detestava a guerra e por um desses iluminados lapsos do destino, acabou se refugiando na sossegada capital da Terra Branca, no exato instante em que os entusiastas locais da aviação acabavam de inaugurar um Aeroclube na cidade. Aqui chegando, Kurt ficou entusiasmado com o clima altamente convidativo para a prática do voo a vela, uma modalidade de treinamento militar originária de seu país, a Alemanha.

A regularidade da topografia de Bauru e o clima, ensolarado e quente na maior parte do ano, encantaram o jovem apaixonado pela navegação aérea que em 1942 fincou residência em território bauruense, daqui não saindo nunca mais. Os profundos conhecimentos de Kurt na prática do voo sem motor sensibilizaram os fundadores do aeroclube que, na ocasião, estruturavam a escola de pilotos. O alemão, que foi personagem inesquecível de histórias curiosíssimas do Aeroclube de Bauru, chegou no mês de julho, tendo em sua bagagem as plantas de construção de um planador Zoegling e um passaporte suíço.

Apoiado pelos entusiastas locais, Kurt escreveu para o cunhado, o projetista suíço, Hans Widmer para que viesse a Bauru auxiliá-lo no projeto de fazer da cidade um pólo do Voo a Vela.

Juntos, Kurt e Widmer começaram a fabricar planadores. Inicialmente, os pequenos planadores eram rebocados por um automóvel, como verdadeiras pipas gigantes. Pouco tempo depois, os planadores de madeira e lona passaram a ser conduzidos aos céus por pequenos aviões monomotores, sendo soltos em voo livre a uma altura de cerca de 500 metros do solo.

Em 1942, Hendrich Kurt construiu nas oficinas do Aeroclube de Bauru o Zoegling, um planador de desenho alemão, batizado de “Arildo Soares” em homenagem a um entusiasta bauruense da aviação e tesoureiro do Aeroclube de Bauru na época. Idêntico em forma e dimensão ao modelo original, Kurt utilizou apenas material nacional na sua confecção. Esse planador tinha asa alta e não possuía cabine – o piloto ia ao ar livre – era rebocado por camioneta, decolava entre 50 e 60 km/h e conseguia atingir velocidades de 80 km/hora. Seu primeiro voo foi realizado em 5 de setembro de 1942.

O planador recebeu o apelido de “canguru” e fez uma carreira memorável nos céus de Bauru.

Com a fábrica montada nas oficinas do Aeroclube de Bauru, logo iniciou-se o aprendizado da modalidade. A primeira turma de alunos da Escola de Planadores, constituída de 48 pilotos, formou-se em 1942.

A novidade espalhou-se muito rapidamente pela América Latina e em 1945 um grupo de bolivianos da Escola de Aeronáutica de La Paz – Bolívia, veio a Bauru especialmente para realizar o famoso “Curso de Planador”.

Um ano antes, em 1944, foi construído no Aeroclube de Bauru, sob a orientação de Hendrich Kurt e Hans Widmer, o planador “Flamingo”.

O planador “Spalinger”, que é hoje ainda considerado uma obra de arte e uma raridade, ainda voa nos céus de Bauru e foi construído nas oficinas do Aeroclube de Bauru, no ano de 1953, de acordo com o projeto original de Jakob Spalinger, sob a orientação de Kurt.
Graças ao entusiasmo e a competência de Kurt e de seu cunhado Widmer, o Aeroclube de Bauru foi se consolidando, desde os anos 40, como um dos berços do planador no Brasil.

Para manter viva a memória do nosso eterno paraninfo, o Aeroclube de Bauru realiza, anualmente, a Prova Kurt – uma competição de Voo a Vela que reúne dezenas de competidores, todo início de temporada, na cidade de Bauru.

A Sala Kurt, é outra carinhosa reminiscência, que os diretores fazem questão de manter em pleno funcionamento dentro do movimentado hangar.

Fotos